sábado, 8 de agosto de 2015

Sobre ensinar a escrever


Vamos lá falar de coisas sérias. Eu leio que me desunho, mas também escrevo. Vou publicando coisas por aí, onde consigo, incluindo em sítios novos, como se de projectos novos se tratassem (de onde é que isto veio?), e considero-me um aspirante a escritor amador.

Devo isto à dose massiva de livros que sempre tive em casa, e que raramente me foram negados, e também à minha curiosidade natural. Já o disse algures, mas a Literatura, tanto a leitura como a escrita, é o verso da moeda da Ciência, para mim. São duas formas de explorar o mundo, das quais eu uso e abuso porque quero aprender, acima de tudo.

A Ciência deixa-me compreender o mundo e ver para lá das coisas, enquanto que a Literatura me deixa ver o mundo. E quem diz mundo, diz pessoas, diz eu. Aquilo que têm em comum é que ambas as faces da moeda me deixam maravilhar com o mundo.

E sem dúvida que desde muito cedo que interliguei ambas as coisas. Ou que, pelo menos, as deixei coexistir em força, nunca optando realmente nem por uma nem por outra. Sim, escolhi seguir Ciências, e mais tarde Engenharia, porque acho que é aí que posso fazer a diferença, mas nunca deixei de ler nem de escrever.

No entanto quase nunca ninguém me ensinou a escrever, propriamente falando. Raras foram as pessoas que se preocuparam com a beleza de uma frase e a assertividade de certa palavra, ou que me deram conselhos sobre a estrutura narrativa de uma história. Era sempre preciso era escrever sem erros e que ficasse um texto claro e perceptível.

Ou seja, até um certo ponto, não há muito tempo, tudo o que sabia, aprendi por mim e a bater com a cabeça nos livros. Mas lá surgiu a oportunidade. Juntei-me à Oficina de Escrita da Trëma, conheci pessoas com quem partilhar os meus textos que me diziam mais do que "está giro" e foi uma festa.

Aprendi muito (ainda ando a aprender) e acho que se não tivesse tido estes dois golpes de sorte, se calhar já tinha deixado de escrever. Como tal, sinto a necessidade de divagar um bocado sobre o assunto.

É que há quem diga que ensinar-se a escrever é idiota, tal como o são as oficinas e workshops de escrita, assim como há quem diga que para escrever um bestseller basta seguir um certo número de passos e ter muita perseverança. Acho que estão ambos errados, e tendo eu sido aluno de escrita, participando activamente num grupo de escrita, e até já sendo um ocasional professor de escrita, tenho que pôr as coisas em pratos limpos.

A primeira coisa é que estou a falar de escrita a sério, e não do Pedro Chagas Freitas, esse tipo execrável cujo nome do meio podia ser mainstream, e que tem umas ideias muito deturpadas sobre Literatura e escrever e vender livros. Aquelas coisas que ele faz, pelo Facebook e tudo, cujos mails continuo a receber, por muito que refile, são coisas idiotíssimas, sobre as quais nem sequer me quero alongar. Meros esquemas para sacar dinheiro a tipos ou desesperados por mostrar o quão espectaculares são, ou palermas o suficiente para acharem que é isto que os vai tornar espectaculares, e que é normal andar a desembolsar valores ridículos por umas achegas no Facebook, praticamente públicas.

Enfim. Isto chateia-me porque continua a perpetuar o estigma que existe contra as oficinas de escrita, que podem muito bem ser coisas fantásticas! É aqui que entro em desacordo com quem diz que ensinar-se a escrever é idiota. Claro que não é. O que vocês querem dizer é que não se pode ensinar ninguém a ser um Saramago, ou um Poe, ou um Murakami, ou um Dickens, ou um Orwell, ou um Balzac, ou um Tolstoi, ou um Mia Couto, nem nada que se pareça. Completamente de acordo.

Mas pode-se ensinar a escrever. Podem-se ensinar técnicas, podem-se ensinar exercícios, podem-se apontar falhas fatais, podem-se dar sugestões construtivas que ajudem as pessoas a perceber "epah, sempre que tento escrever terror acabo com pessoas aos beijos, se calhar vou escrever histórias de amor". É isso que se faz numa oficina de escrita. Numa boa oficina de escrita, pelo menos.

Aqui dou o exemplo da Oficina da Trëma, que degenerou, no melhor sentido possível da palavra, no grupo Polícia Bom, Polícia Mau. Nunca ninguém nos disse "tens que escrever assim" ou "precisas de usar estas palavras", nem ninguém transformou ninguém num escritor, vindo do nada. Não. É preciso ter-se talento? Talvez. É preciso ter-se pelo menos algum jeito para a coisa? Sem dúvida! Mas também é preciso muito, mas muito trabalho.

O que a Oficina me deu foi calo: muita escrita, muita leitura, muita crítica a fazer, muita crítica a ouvir. Aprendi e evoluí da mesma forma que o Son Goku no Dragonball (good gauss, ainda me consigo surpreender com o tamanho da minha cromice), que apanhava porrada até ficar semi-falecido, recuperava, e não só estava logo melhor, como aprendia com os erros. Algo que sempre achei muito importante, em tudo, excepto em médicos e bombeiros e assim. Se alguma vez tiverem que lidar comigo, façam-no bem à primeira, se faz favor. Mas de resto, errar não é assim tão mau, nem sequer há melhor forma de aprender.

Portanto é possível ensinar a escrever? Sem sombra de dúvida. É possível ensinar a ser um Saramago? Nem que tenham o melhor professor do mundo (quanto mais com as Chagas que andam por aí). É preciso ter jeito? Sem sombra de dúvida. É possível melhorar, com esforço, mesmo que o jeito seja pouco? Claro que sim.

Que existam oficina de escrita, desde que bem feitas!

4 comentários:

Miguel Chaica disse...

Grande Rui!

Em certa parte estou de acordo contigo, no entanto não considero que seja obrigatório ir aprender a escrever ou, se quiseres, ir aprender aquelas velhas técnicas de criação literárias.

Nota, a maioria dos grandes escritores foram precisamente aqueles que surgiram com um estilo novo, alguns deles desbaratando completamente as regras literárias tidas como certas, logo, eu sou daqueles que pensam, por exemplo, como o Stephen King que, entre vários conselhos, refere: "Escrever para si próprio só depois pensar no leitor"; "Não se preocupar com o que os outros vão dizer"; "Não ficar obcecado pela gramática. «A finalidade da ficção não é a exactidão gramatical, mas deve permitir que o leitor entre no romance para lhe contar uma história".

Até hoje apenas escrevi pequenas coisas, estilo contos, mas depois de interiorizar isso comecei a escrever e, até para espanto meu, já vou num texto de 100 páginas. Nunca fiz qualquer curso, obviamente que li muita coisa sobre escrita criativa, mas foram precisamente essas regras que me estavam a sufocar a criatividade.

Abraço!

Rui Bastos disse...

Não acho que seja obrigatório! Mas que ajuda, ajuda. É preciso, pelo menos, conhecê-las bem. Esses grandes escritores que falam são de um de dois tipos possíveis: génios absolutos, que já nasceram a escrever e cuja capacidade não está ao nível dos comuns mortais (quase não existem, estes); e pessoas que leram muito e conheceram muita coisa.

A minha mãe é que diz sempre, com toda a razão, "para quebrar as regras, é preciso conhecê-las". Saramago só se podia dar ao luxo de ter tão pouca pontuação porque a sabia usar muito bem, por exemplo.

Acho, isso sim, que existe uma parte técnica para a escrita. Alguém sem noção da gramática, do vocabulário e da estrutura de uma história, não faz nada de jeito (a não ser que seja um daqueles génios absolutos). Depois pode quebrar com todas essas coisas, sem problema, mas só se souber muito bem o que está (e não está) a fazer!

Quando se fala em regras de escrita, é mais fácil pensar em guidelines da escrita. Começar o texto com uma frase curta, show, don't tell, e por aí fora, são tudo coisas que podem dar asneira da grossa. E não precisam de ser seguidas religiosamente. Mas é bom ter noção delas, e do que funciona e não funciona.

Tu nos teus escritos (não partilhas?) de certeza que dás por ti a escrever duma certa forma e não de outra, porque uma delas não funciona. E isto torna-se mais crítico quando se começa a escrever profissionalmente, em que é preciso ter em atenção o público alvo, a vontade dos editores, e outras coisas que tais. Não é que se deva vergar o texto à vontade de nenhum deles, mas deve-se ser capaz de pensar "podia usar aqui 'oscular', mas isto é um livro infantil, talvez não seja a melhor ideia", compreendes?

Parece óbvio, mas há escritores com algum reconhecimento que cometem estas falhas uma e outra vez (José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, David Soares, Filipe Faria, assim de repente), de uma forma ou de outra.

Mas o que interessa é escrever, isso sem dúvida!

Abraço!

Anónimo disse...

Acho engraçado que o tipo que gere o melhor blogue da internet sobre literatura venha um dia a ser um engenheiro. Isso apenas demonstra uma vasta capacidade de apreensão e compreensão da tua parte, Rui.
Continua assim.

Quanto a ensinar a escrever...
Concordo que os professores de português pouco ensinam a escrever. Infelizmente, apenas tive uma professora verdadeiramente interessada em que os seus alunos aprendessem a escrever em vez de formar frases legíveis... e ninguém gostava da desgraçada.

Quanto a escrever acho que só a prática nos ensina a escrever. É escrever, ler, melhorar, reler, melhorar e continuar assim interminavelmente. Óbvio que só aprendemos a saltar muros se soubermos o que são muros. As regras existem, mas podem ser inovadas, desafiadas, quebradas e por ai adiante...

Quanto a ensinar a escrever, acho que é uma coisa difícil manter o equilíbrio entre dar a conhecer ao pupilo os conceitos básicos e dar-lhe a liberdade necessária para ele aprender por ele próprio com os seus erros. Nada melhor do que ensinar a pescar... mas antes de se ser bom pescador tem que se aprender a apanhar o isco, a colocá-lo nos anzóis e a jogar a cana... alguém tem que o ensinar...
Por tudo isto, muito respeito por quem se dedica a esta actividade extenuante.

Abraço
Francisco Fernandes

Rui Bastos disse...

Continuas a ter essa opinião inflacionada do meu blog... Obrigado! Apenas acho que lá por gostar de uma coisa, tenha de negligenciar a outra (e há mais gente assim, a minha namorada incluída).

Até há professores de português que tentam qualquer coisa, mas um desvio da norma é imediatamente visto como errado. Embora talvez o seja 90% das vezes, e seja difícil apanhar os outros 10%, devia-se ter isso em atenção.

Lá está, é escrever até doer!

E olha que eu encontrei dois professores excelentes na Oficina de Escrita da Trëma... E agora, no "colectivo de ensino e inter-ajuda" em que o grupo degenerou (novamente, da melhor forma possível) não podia querer melhores parceiros-professores :)

Abraço