sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Uma Viagem à Índia [1/2]: ou como Gonçalo M. Tavares, um dos mais galardoados autores portugueses da actualidade, é também um dos piores


Autor: Gonçalo M. Tavares


Opinião: Este texto é altamente irregular. Uma das coisas que menos gosto de fazer é opinar a meio de um livro. Posso dizer qualquer coisa, mas nunca uma opinião decente: até chegar à última página muita coisa pode acontecer.

Nas raras vezes em que isto me acontece é por causa de uma de duas razões: ou o livro é extraordinariamente bom (e mesmo assim acabo por me desapontar), ou o livro é extraordinariamente mau (e por esse lado, raramente mudo de opinião). E este, caros leitores, trolls profissionais e pessoas do futuro que andam a ler umas coisas deste blog para descobrirem se sou um psicopata ou não (spoiler: eu é mais sociopatia), este é um livro extraordinariamente mau.

E ainda só li cerca 45%.

Pois é, depois da queixa disfarçada de opinião da Mensagem, sejam bem vindos a mais um relativamente longo rol de queixinhas.

Nem sei bem por onde começar... Tenho tanto por onde pegar... Ah, já sei! Que tal começar por dizer que não li um, dois nem sequer três livros deste autor, mas sim quatro, e ainda um conto e algo inclassificável? Pois é, estou novamente a falar com conhecimento de causa.

"Ainda não tens é maturidade para esta escrita invejável!"

Bons olhos o vejam, Sr. Burro da Silva, como vai? Não quero saber. Nem sequer vou fazer de conta que sou simpático consigo, se vem aqui defender o Tavares, aviso-o já de que vai ser trucidado. Pronto, quando quiser, esteja à vontade. Como eu estava a dizer, não estou a dizer nada vindo do ar, e esta crítica é mais uma vez uma crítica informada.

Como tal, avancemos. Este livro foi vendido como uma homenagem e um sucessor aos Lusíadas, e é isso que tenta transparecer por todos os poros: desde o título à edição em capa dura, que lhe dá um ar mais sério e vetusto. A história tem inspirações desse grande épico, está dividida em cantos e escrita em verso, é verdade sim senhor. Mas em vez de homenagem pensem mais em colagem.

É que dizer que este livro é uma homenagem à epopeia de Camões é como dizer que o próximo filme do Michael Bay é uma homenagem a um atentado terrorista qualquer: sim, ambas as coisas só fazem é mal às pessoas nas proximidades, e sim, são ambas igualmente desprovidas de qualquer sentido, mas tirando isso...

Logo à partida, estar em verso ou não estar é igual ao litro. E é preciso muito descaramento da parte de Tavares para escrever o livro com esta estrutura. Basta lerem umas páginas para perceberem que a única coisa que ele fez de diferente relativamente a escrever um livro em prosa foi carregar mais vezes no Enter ou usar folhas mais estreitas. De resto, o verso, que não tem métrica fixa nem rima regular (ou irregular, nada), não serve para absolutamente. Torna-se insultuoso para a obra original, que é uma autêntica ode à capacidade técnica de Camões.

Na prática é o equivalente a eu escrever um livro de poemas, todos ao meu estilo, e assinar cada um com um nome diferente. Já estou a imaginar, O livro triunfal, a maior homenagem a Pessoa e os seus heterónimos. Só que não. É uma mera decisão estilística que foi feita só porque sim, e que ainda por cima conseguiu ser extremamente mal executada.

Depois o que dizer da "história"? A escrita em si nem me aborrece por aí além - tal como em Pessoa(s), encontro algumas passagens que considero dignas de anotar no meu caderno de citações - mas a completa ausência de história em prol de pregos ideológicos que o autor tenta martelar através do meu crânio... Lamento, mas isso dói que se farta.

"Esta juventude de hoje em dia já não sabe apreciar um livro contemplativo, é o que é. Gonçalo M. Tavares é um dos maiores escritores de sempre, tem uma técnica impressionante e um talento imenso, e as obras que escreve são de uma profundidade que os comuns mortais apenas podem imaginar."

Mas tem toda a razão, Sr. Burro da Silva, pelo menos nas duas últimas coisas que disso: o autor realmente tem um talento que me deixa espantado e desapontado por o ver a ser desperdiçado, e os seus livros são odes à profundidade filosófica. Aliás, se a profundidade filosófica se medisse em metros, ia ser preciso inventar uma nova classe de números para medir os livros do Gonçalo M. Tavares.

E o problema é exactamente esse. Os livros são tão, mas tão, mas tão profundos, que sabem o que é que se vê cá de cima, quando se começam a folhear as páginas? Nada.

"Trapaceiro! Ignorante! Tu é que não compreendes o que o autor quer dizer!"

Por uma vez concordamos. Eu sou de facto uma pessoa com inclinação para fazer batota, não sei assim tanta coisa quanto isso, e não compreendo PEVAS daquilo que este autor me quer dizer. A única coisa que retiro dos seus livros, para além das ocasionais citações interessantes, é que estou perante mais um autor que se está a borrifar para os leitores. Ou melhor, que está a cultivar um grupo de leitores muito específico, um grupo intelectual de intelectualidades muito intelectuais, que só são capazes de ler obras que avancem a espécie humana e que estejam rotuladas como OBRAS-PRIMAS, CLÁSSICOS e NOBEL.

É pena. Lá está, acho que o Gonçalo M. Tavares é um dos melhores escritores da actualidade. Mas mantenho-me firme na minha opinião de que é um dos nossos piores autores.

Já se tenho maturidade ou não para para dizer estas coisas, como o Sr. Burro da Silva tão bem questionou ali em cima, a única coisa que vos digo é: se tudo correr bem nunca ninguém vai achar que eu tenho propriamente maturidade suficiente para o que quer que seja. Gosto demasiado de brincar com Legos.

26 comentários:

Jules Pijey disse...

Próxima vez que o virmos no Mac vamos lá falar com ele!

Rui Bastos disse...

Olha que... Era gajo para isso!

Luiz Santos-Roza disse...
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Luiz Santos-Roza disse...

Ele vai estar na Livraria Almedina, no Saldanha, no dia 28, na sessão de Recordar os Esquecidos. Eu vou lá estar, não por ele, ma apesar dele. Talvez o outro convidado seja interessante. Porque não aparecem?

Rui Bastos disse...

Luiz, não podia estar mais de acordo. Espanta-me que um autor assim, que ainda por cima até tem talento, consiga chegar tão longe! É que escapa-me mesmo completamente.

Aquela tendência de martelar as ideias na minha testa não me agrada nada. É um sinal de alguém que não sabe como falar das suas ideias, e que as tenta forçar a toda a gente, da forma mais agressiva possível.

E sim, não tinha pensado nisso, mas é de facto um autor/poeta "moderno", o que explica muito do meu ódio pela sua obra!

P.S.: Fiquei muito curioso com essa sessão, talvez apareça! Se assim for, não hesites em falar comigo.

Filipe de Arede Nunes disse...

O autor do texto tem um evidente problema (ou recalcamento) com a questão da maturidade! Tem de ultrapassar isso. Se o fizer, talvez deixe de parecer zangado com o mundo!

Embora considere que o autor escreveu o melhor livro português deste milénio (Jerusalém) não gostei desta obra de Gonçalo M. Tavares. A ideia, em tese, é excelente mas creio que não foi capaz de a concretizar. Pelo menos da forma como eu pensava que o autor mais genial da actual literatura portuguesa conseguiria fazer.

Apesar de tudo importa salientar que Uma Viagem à Índia tem momentos excelentes. De certa forma é um pouco como a literatura fragmentária de William Faulkner ou António Lobo Antunes - só para dar dois exemplos. Existindo esses momentos de lucidez poética quase faz com que a sua leitura valha a pena.

Rui Bastos disse...

Ahhh... Mas eu sou uma pessoa muito zangada com o mundo :)

Eu não achei esse livro, o Jerusalém, nada de jeito, assim como aconteceu com os outros 3 da mesma saga.

Tendo lido tudo o que já li, tenho muita dificuldade em sequer considerá-lo um bom autor. Claramente há potencial e há talento, mas tudo nos seus livros grita para o lado errado da linha de qualidade.

Luiz Santos-Roza disse...
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Rui Bastos disse...

"A cada página e GMT que leio sinto-me tratado como uma criança levada pela mão de uma mãe-galinha. Acho que é isso que agrada tanto aos leitores dele, a sensação de que estão a ler algo inteligente ao mesmo tempo que a papinha está toda feita por eles."

Isto é a melhor descrição dos livros do Tavares que eu já vi!

Filipe de Arede Nunes disse...

O Rui Bastos parece-me um tipo novo! No entanto, farta-se de dizer que já leu muito. Pode ser que sim. Mas esclareça-nos lá: o que é que já leu por aí que verdadeiramente o entusiasma? E ler muito significa o quê? É que, pelo que vi num seu texto anterior, até o Pessoa desvaloriza!

O Luiz Santos-Roza pode achar o que quiser sobre o que os outros pensam sobre este ou aquele tema. Mas terá, em primeiro lugar, de compreender o que os outros escrevem. Não comparei - genericamente - a escrita de Tavares a Lobo Antunes ou a Faulkner! Escrevi, antes, que considero existirem no livro Uma Viagem à Índia semelhanças com o estilo de narrativa fragmentária que encontramos naqueles dois autores.

Por vezes temos alguns ódios de estimação e, muitas vezes, gostamos de estar em contra-corrente! Talvez Jerusalém não seja grande livro. Creio, no entanto, que foi José Saramago que o considerou (ao livro, embora tivesse, também, opinião favorável do autor) uma das grandes obras da literatura portuguesa.

Discordo frontalmente da opinião de que Gonçalo M. Tavares é um escritor vulgar. Não li tudo o que escreveu mas no que tive oportunidade de ler encontro muito talento. A sua escrita, ao contrário do que o Luiz Santos-Roza sugere, não é simplista nem o vocabulário que usa minimalista. São opiniões. Se tivesse tempo para escrever uma recensão sobre a sua obra demonstraria com maior clareza o que penso mas creio que existem argumentos de autoridade bem superiores aos meus dos quais resulta a ideia de que a Gonçalo M. Tavares é um dos grandes escritores mundiais da actualidade.

Luiz Santos-Roza disse...
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Luiz Santos-Roza disse...
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Luiz Santos-Roza disse...
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Rui Bastos disse...

Isso Luiz, não nos exaltemos. Não acho que tenhas sido muito duro, mas não quero que ninguém se chateie por aqui.

Dito isto, e começando por responder ao Filipe, não acho de bom tom começar um argumento por questionar o quanto leio e a qualidade daquilo que leio. Basta dar umas voltas pelo meu blog para perceber que não estou a falar em vão. Mas se quer pormenores, eu providencio: só conto desde que entrei para a faculdade, em 2011, e desde aí que tenho uma média de leitura ligeiramente superior a 100 livros/ano. Portanto pode apontar para mais de 500 livros nos últimos 5 anos (menos alguns, que há algumas repetições). De qualquer forma eu já leio com regularidade desde que sou capaz de o fazer, desde que tinha 6 anos e entrei para a escola primária.

O primeiro livro que me lembro de ler a sério foi o Harry Potter, mais ou menos com essa idade, e antes de entrar na puberdade já tinha despachado uns 10 livros do Jules Verne.

Claro que isto não diz nada sobre a minha capacidade enquanto leitor e parece apenas show off (é um bocadinho, não é todos os dias que alguém pode dizer que leu 10 livros de um dos maiores autores de sempre antes sequer de chegar à puberdade). Portanto vamos detalhar melhor.

Em termos de escritores de uma forma geral que sejam melhores do que GMTavares, tanta coisa que nem vale a pena. Vamos focar-nos em autores portugueses.

Já ouviu falar de David Soares? Eu próprio ando muito desiludido com as últimas escritas do homem, mas tem algumas obras verdadeiramente excepcionais (ver "A Conspiração dos Antepassados" e "Batalha"). João Tordo também me parece que se está a desviar dos meus gostos, mas tem bons livros e uma prosa fácil que não é simplista, com capacidade real de contar uma história e fazer as mensagens passar nas entrelinhas (ver "O Bom Inverno" e "Hotel Memória").

Rui Bastos disse...

Mas se isto for tudo muito recente, podemos falar de Luís Filipe Silva, autor de FC e dono de uma das prosas mais literárias que conheço (ver a primeira parte de "Terrarium"), ou de João Barreiros, que não é fácil de ler, mas que tem coisas bastante boas também (ver "Terrarium" e "Se Acordar Antes de Morrer").

Dentro de outro estilo, podemos falar de BD. Conhece Nuno Duarte? É um óptimo argumentista e criou, em colaboração com Osvaldo Medina (que desenhou), um dos meus livros favoritos de sempre (ver "A Fórmula da Felicidade" vol 1 e 2), e ainda a outro, que também considero bom (ver "O Baile"), este em colaboração com Joana Afonso, uma excelente ilustradora (provavelmente a que mais gosto, actualmente, em termos nacionais).

Posso ainda falar de José Eduardo Agualusa, de quem ainda li pouco mas que tem potencial, uma boa escrita e consegue dar significados importantes àquilo que conta (ver "O Vendedor de Passados"), ou até Mia Couto, que dispensa comentários (ver "Um Rio chamado Tempo, uma Casa chamada Terra").

Isto tudo para não falar dos meus óbvios. Acho que qualquer autor destes que mencionei bate GMTavares aos pontos. E atenção, não digo que ele escreva mal, eu também lhe reconheço talento, da mesma forma que reconheço génio em Pessoa, mas enquanto autor, por agora, é exactamente como o Luiz disse. Escreve intelectualidades de fácil digestão, e é só por isso que vai tendo o sucesso que tem.

Por falar em Pessoa... "É que, pelo que vi num seu texto anterior, até o Pessoa desvaloriza!". Confirma-se. Reconheço o génio, como disse, mas enquanto autor encontro-lhe muitas falhas. Mas muitas, mesmo. Sou da opinião de que Pessoa é uma instituição, uma entidade que já está fixa no firmamento literário português, e que se alguém descobrisse uma lista de compras escrita por ele, iam reconhecer ali traços neoclassicistas de uma genialidade impensável.

É o culminar do caminho que o GMTavares está a tomar, só que Pessoa era realmente um génio com noção da sua qualidade.

Não me venha é dizer "até o Pessoa desvaloriza!" como se isso fosse um crime. Sempre que falo mal dele (ou de qualquer outro autor/livro/pessoa/coisa), apresento as minhas razões, e se não o tiver feito em algum sítio, rapidamente darei satisfações a quem de direito. E terei todo o gosto em discutir longamente a minha aversão a Pessoa (ver final do comentário).

Agora GMTavares, eu costumo dizer que os livros dele são martelos, as mensagens dele são pregos, e a leitura é como ter o próprio autor a tentar que os pregos me cheguem ao cérebro. De um ponto de vista de mensagem, é bruto. Extremamente bruto. Não mostra uma enorme capacidade em discorrer sobre os assuntos, mas sim uma enorme inépcia em apresentá-los de forma apetecível. GMTavares devia estar a escrever ensaios filosóficos, só que isso não vende nem lhe dá prémios nem deixa que o apontem ao Nobel, não é?

De resto, faço minhas as palavras do Luiz, de uma forma geral. Terei também todo o gosto em transpôr esta conversa para um meio mais conveniente, e nesse espírito disponibilizo o meu mail. Estejam à vontade, os dois, para dizer alguma coisa, sobre este ou outro tema.

(ruijpbastos@gmail.com, e qualquer outro tema, já agora)

Mas não se inibam de comentar aqui. Está a ser uma boa discussão!

Anónimo disse...

O que faz um artista?
Cria obras que emocionem e levem a uma reflexão profunda sobre algum assunto.

Acho que o GMTavares consegue fazer isso.
Dentro das suas micronarrativas, ele consegue implementar algumas ideias e emociona-nos.

Em "Jerusalém", livro que apreciei mais do que "Uma Viagem à Índia", o autor conta a história de dois loucos que se "amam", mas que se esquecem sem se esquecer um do outro, de um filho nascido de uma louca que se esqueceu sem esquecer que tem um filho, de um homem enlouquecido pela guerra que se esqueceu sem esquecer do valor vida, de uma prostituta enlouquecida por outros loucos e a história de um médico que investiga a loucura.
No final, o grande objectivo do autor é dizer-nos para nunca nos esquecermos de nada porque esse esquecimento dá cabo de nós. No entanto, a obra fez-me reflectir acerca do que é a loucura nas suas mais variadas vertentes. E tem frases muito boas do tipo "As doenças vêm com os exames..." e outras que tais.

Nesta obra de capa vermelha, nada tendo a haver com "Os Lusíadas" - até porque Camões levou uma vida inteira a escrever a sua obra magna e GMT está a publicar um livro de dois em dois meses -, GMT tenta levar-nos numa viagem de ideias enquanto se percorre o trajecto Lisboa-Índia. Claro que os cantos e que as estrofes sem rimas e sem métricas é apenas uma tentativa de homenagear "Os Lusíadas", mas não quer dizer que essa prosa não tenha bons momentos e boas ideias.

É um livro diferente, muito ao estilo de António Lobo Antunes - que para contar uma história sobre uma casa dá a volta ao quarteirão cinco vezes.

Acho no entanto que o autor não merece comentários tão depreciativos.
Talvez pudesse escrever livros um pouco mais normais.
Talvez pudesse escrever um livro com o título "As doenças vêm com os exames..." e contar a historia de um doente e de um medico a um nível profundo.
Mas acho que o objectivo do GMT não é esse.
É simplesmente pôr-nos a pensar sobre uma ideia e depois outra e depois outra e depois outra... tudo ao de leve.
É uma máquina de dar ideias...

Abraço
FBF

Anónimo disse...

Agora que li os comentários fiquei um pouco atarantado com a defesa da grande literatura feita pelo senhor Luiz Santos-Roza.

Primeiro, plenilúnios à parte, porque precisam as pessoas de palavras preciosas? Não basta a pureza das palavras, duras e cruas, como elas são? Será necessário nebulizar e negar aos leitores comuns a compreensão do que se quer dizer com aliterações e hiperbatos?

Não basta escrever Luís em vez de Luiz? (Perdoe-me a brincadeira)

Saramago discordava e o homem não era a favor do instinto de carneirada, é verdade, mas vamos dar a nossa opinião que por enquanto ainda está viva.

Acho carentes os comentários de quem só diz mal, não reconhecendo méritos mesmo a quem só tem deméritos. Se, e só se procurar, encontrará expressões do GMT com a mesma qualidade aliterada hiperbatizada ou metaforizada.

Garanto-lhe.

Talvez aquilo que o LSR queira seja um novo Luís de Camões, mas é impensável que alguém como esse asceta do português surja novamente.
Hoje, qualquer escritor quer ser reconhecido. E aquele que é reconhecido, para sobreviver, precisa de vender (V.g. Salgari). Ninguém aguenta nesta sociedade viver a vida toda para criar uma obra-prima e morrer no esquecimento como o Zarolho.
Saber comercializar as suas obras é necessário nos dias que correm e não podemos criticar quem o tenta fazer.

Que não se critique o excesso de escritores; critique-se é a ausência de quem tem iluminado o mundo com linhas escritas em vez de luz. Critique-se é a ausência do preto caligrafado na matriz branca.

Adiante, floreados diletantes à parte, isto não invalida que eu não goste de um bom chanfalho ou de mergulhar profundamente num mar profundo de letras e deixar que os sons e as rimas internas e externas, mesmo numa prosa, me tirem o chão. Claro que as palavras e os étimos que vão ao fundo, à origem e definem a essência de algo apenas com meia dúzia de caracteres são engenhos que apreciamos.

No entanto, , quando se faz parte das elites, é preciso ter a hombridade de perceber que o povo precisa de ser levado aos poucos com palavras simples. Só depois de as colunas estarem assentes é que se podem criar tectos espelhados, telhados cheios de curvas e abóbadas cheias de frescos. Portanto, deixe os prosadores prosarem com palavras cruas e duras e simples como a essencial da vida. Depois de elas se fartarem de comer as mesmas palavras é irão perceber que lhes faz falta saborear algo mais que uma barriga cheia. Um dia, os leitores só desejarão o gourmet: a poesia das palavras e o engenho de mil pensamentos expressos numa simples frase... e os versos escondidos mesmo numa prosa.


Acho que percebe aquilo que quero dizer LSR.


Cordiais Cumprimentos
FBF

Rui Bastos disse...

Francisco, o problema é que o GMTavares só tem a parte das ideias... Até as tens boas, e quando quer explora-as como deve ser, mas em termos literários falha completamente em expressar essas ideias.

É a diferença entre, por exemplo, ter um vilão bem construído, com um ar normal mas com tiques de personalidade que mostram aquilo que ele realmente é, e um vilão que se chama Bastard McEvil. GMTavares só faz o segundo caso, e a sua subtileza de nível betoneira torna a sua escrita densa, em termos de ideias, mas muito esparsa, em termos puramente literários.

Filipe de Arede Nunes disse...

Não abandonei a discussão - nunca o faço - mas tenho estado fora nos últimos dias. Mais tarde irei a jogo admitindo à partida que nunca com a profundidade do Luiz Santos-Roza!

Filipe de Arede Nunes disse...

Não gosto de desertores. Espero nunca o ser! Por isso aqui estou para tentar demonstrar o meu ponto-de-vista sobre este assunto.

Espero, se tiver capacidade para tal, responder ao comentário do Luiz Santos-Roza sem o mesmo pedantismo que este revela nos diversos comentários que me dirige.

i)Creio, embora possa estar enganado, que coloquei o adjectivo “excelente” para qualificar o livro Uma Viagem à Índia. O adjectivo está, aliás, apenas e só na primeira fase. De facto, subsequentemente, afirmo que encontro naquele livro de Gonçalo M. Tavares pontos em comum - dimensão fragmentária da narrativa – com autores como William Faulkner ou António Lobo Antunes. Nunca coloco dois autores no mesmo patamar. Escrevem e pensam de forma diferente e devem ser individualizados. Apesar de tudo, pessoalmente, gosto mais da literatura de Tavares do que da obra de Faulkner ou Lobo Antunes mas tal não significa que desconsidere o trabalho destes. São gostos, nada mais!

ii)Todas as análises dependem do ponto de observação de quem as faz e do contexto em que são feitas. Não sou crítico literário e não tenho formação em literatura. Sou um leitor, um simples leitor. Todos, repito, todos temos um cânone que nos permite balizar os nossos juízos interpretativos. A minha definição de grande literatura (penso que o Luiz Santos-Roza também terá uma!) é construída em função desse cânone. Procuro obras que digam alguma coisa de diferente e livros em que consiga encontrar o sentido. Pessoas e instituições cuja opinião respeito (penso logo em Saramago, em Vasco Graça Moura, em Eduardo Lourenço) consideram Gonçalo M. Tavares um dos grandes escritores mundiais da actualidade. Eu, um ignorante, deveria ter sido mais cauteloso na afirmação que fiz. Afinal, que conheço eu da nova literatura mundial?! Conhecerei Theroux, Gass, Laiseca, Rios? Não, não conheço. Folgo, no entanto, em saber que o Luiz Santos-Roza conhece. E que fica satisfeito por isso. E mais satisfeito ainda de o escrever! Repare – peço-lhe, com delicadeza, que me faça o favor de reparar – que, apesar de tudo, independentemente da sua extraordinária cultura literária, conhece apenas uma minúscula fracção dos milhões de livros que todos os anos são publicados em todo o mundo! Como chegou aos nomes que indicou na sua resposta? Ter-lhe-ão aparecido, durante a noite, num sonho? Vislumbrou-os numa borra de café? O Luiz Santos-Roza também há-de ter as suas referências, também há-de chegar às obras e autores que refere através de alguém ou algo. Presumo, portanto, que valorizará as opiniões desse alguém. Aliás, da mesma forma que eu valorizo as opiniões de José Saramago, Vasco Graça Moura ou Eduardo Lourenço. Note que eu compreendo que o Luiz Santos-Roza possa considerar os três nomes que indico menores, gente que nada sabe de literatura. Pode ser que sim. E quem é que sabe, então, de literatura? Qual é o critério?

Filipe de Arede Nunes disse...

iii)Percebo, pelo que escreve, que o seu ponto de referência da grande literatura contemporânea é – certamente entre outros – Alexander Theroux. Não conheço a obra deste autor americano. Fiz, não obstante, uma pesquisa e, obviamente, encontrei bastantes referências. Não posso, porque as referências não me permitem ter opinião própria sobre livros que não li, dizer grande coisa sobre Theroux. No entanto, a forma como o Luiz Santos-Roza escreve sobre este autor americano – e a comparação que faz com Gonçalo M. Tavares – é paradigmática do pedantismo a que aludia no início desta resposta. Para Luiz Santos-Roza – não querendo reduzir o seu sistema argumentativo a tal – um grande autor, como Theroux (curiosamente, autor que terá sido acusado de plágio!), é aquele «não tem medo de escrever frases que o leitor nunca compreenderá.»! Uau! Será que posso depreender que, para o Luiz Santos-Roza, a grande literatura é estéril, desértica ou infecunda? Bem, não sou a favor da redução de um texto literário a uma concepção meramente utilitarista mas a ideia de que um texto de palavras simples não pode ter um conteúdo intrínseco filosófico é assustadora. Terá lido, porventura, O livro do Riso e do Esquecimento de Kundera? Leu a Invenção de Morel de Adolfo Bioy Casares? Ou Mendigos e Altivos de Albert Cossery? Apenas três exemplos de obras cuja leitura não obriga à consulta de um dicionário e que são, na minha opinião, livros de folego e conteúdo filosófico indiscutível.

iv)Achará o Luiz Santos-Roza que é a única pessoa capaz de pensar critica e metodicamente neste país? Achará, porventura, que aqueles que o rodeiam são todos idiotas? Terá o Luiz Santos-Roza descoberto os autores que recita (bem sei que agora me estou a repetir) num baú? Todos, repito, todos temos as nossas referências. O seu cânone, que se vai alterar, certamente, com a idade e com as novas descobertas que for fazendo, está, também, em íntima relação com o mundo em que vive. Perceba – e não há uma ponta de ironia no que escrevo – que o considero, em função do que escreve no seu blogue – um indivíduo culto e literariamente bem formado. Escreve seguindo as boas regras da sintaxe e da semântica, o que é raro nos dias que correm. Mas atenção, não mergulhe de cabeça no pedantismo que transpira na sua escrita. Poucos terão paciência para isso!

v)Não acho Uma Viagem à Índia um grande livro. Creio que escrevi esta frase num dos meus comentários anteriores. No entanto, o facto de não considerar Uma Viagem à Índia um grande livro não significa que pense o mesmo sobre o seu autor. Jerusalém foi o melhor livro português que li desde (cronologicamente, note-se) A criação do mundo de Miguel Torga. Esta afirmação é, evidentemente, resultado exclusivo daquelas que foram as minhas leituras. Ainda terei, espero, mais cinquenta anos de livros pela frente. É provável que mude de opinião. Afinal, são escritos em Portugal milhares de livros todos os anos. Livros que, na sua larguíssima maioria, nunca lerei. Sigo o meu cânone mas sempre disponível para ler coisas diferentes. Talvez um dia passe pelo Theroux (o Alexander, porque o Paul conheço razoavelmente), pelo Gass ou pelo Laiseca. Afinal, o que é que terei a perder?

Filipe de Arede Nunes disse...

Caro Rui Bastos. Por pontos, também merece!

i)Folgo em saber que tem essa imensa capacidade (vejo-o tantas vezes pela Internet) de ler, em média, um livro de três em três dias. Confesso que o invejo! Concederá, no entanto, que ler é difícil ler livros como Ulisses de James Joyce, A Servidão Humana de Somerset Maugham, D. Quixote de La Mancha de Cervantes, Ilídia de Homero, A Divina Comédia de Dante, Em busca do tempo perdido de Marcel Proust, Guerra e Paz de Tolstói, ou David Copperfield de Charles Dickens em três ou quatro dias. Para ser bem lidos e compreendidos são, em muitos destes casos, precisos meses. Talvez já tenha passado por algum destes – a sua lista de autores e livros lidos é impressionante – e, portanto, saberá a que me estou a referir. Para mim é importante perceber se leu este tipo de coisas (entre muitas outras como Virgílio, Ovídio, More, Montaigne, Shakespeare, Voltaire, Goethe, Stendhal, Flaubert, Byron, Carroll, Stevenson, Dostoievski, James, Levi, Calvino, Cella, Céline, Camus, Kafka, Malraux, Wollf, Mann ou Gorki) para poder entender o que é para si um grande livro ou um grande autor. Claro que, como é evidente, é livre de gostar do que bem lhe apetecer mas fico sempre de pé atrás quando leio/oiço alguém que afirmar – ou deixar subentendido – que Fernando Pessoa não é o grande autor da poesia portuguesa do século XX.

ii)Pela lista que fez, percebo que temos interesses bem diversos. Efectivamente, literatura como a de David Soares não me entusiasma nem um bocadinho. Como referi acima, não tenho a sua capacidade de leitura. Nos bons anos consigo, talvez, ler uns 40 livros. Ora, ainda que aumente significativamente o ritmo da minha leitura, no melhor dos cenários, talvez consiga ler uns quatro mil livros. Uma vez que já li uns 25% desses quatro mil penso que quero gastar os restantes 75% maioritariamente com os autores consagrados pelo tempo. Confesso que as experiencias que tenho tido na literatura contemporânea me desagradam. Não penso que todos os autores tenham que escrever coisas absolutamente novas mas espero, pelo menos, que sejam capazes de introduzir, em temas muito trabalhados, alguma originalidade e génio. Terá de admitir que – e voltando a Pessoa – o Livro do Desassossego tem momentos únicos de brilhantismo. É isso que procuro, a singularidade desses momentos. São eles que, no meu caso, dão sentido à literatura!

Filipe de Arede Nunes disse...

Notem, por fim, que considero esta troca de opiniões muito interessante. Isto, como é evidente (espero!), independentemente do tom!

Rui Bastos disse...

A pedido do Luiz Santos-Rosa, apaguei os seus comentários desta publicação, por ele os ter considerado demasiado agressivos e não querer propagar nenhuma conversa nessa direcção.

Assim sendo, dou esta discussão por encerrada.

R. P. disse...

Aleluia! Aleluia! Finalmente encontro alguém que tem a mesma opinião que eu. O Gonçalo é uma criação da imprensa, crítica, editoras e também da "elite portuguesa". Não há nada que escreva que não seja imediatamente valorizado pela crítica. É necessidade, após a morte de Saramago e em face de não unanimidade de Lobo Antunes (de quem não sou nada, mas mesmo nada fã) de se criar um autor a fim de suprir a falta de um Saramago (diga-se em abono da verdade que este teve muita culpa naquilo pelo qual hoje o Gonçalo é considerado).
Enfim, é vão andares a tentar argumentar contra os que são fanáticos do Gonçalo. Os seus leitores são aqueles que o lêem sem nada perceberem; são aqueles que lêem porque é "alternativo" (assim à laia da música indie, ou tudo com o que o termo arrasta); são aqueles que lêem a E, o Ipsilon, a Ler, entre outros pasquins de propaganda ao autor, bem como a outros autores também de levar ao colo.
Fica um autor que é um dos melhores em Portugal, mas como não tem propaganda, ninguém o conhece: Norberto Morais. Pesquisa na Wook. Tem dois livros, um deles já difícil de se arranjar. Quem gostar do realismo mágico, de Garcia Marquez, Saramago, Borges, etc., o Norberto é o autor ideal. E não há, para mim, pelo menos dentre aquilo que eu gosto enquanto escrita, sobretudo, e enquanto história, quem escreva neste momento melhor do que ele em Portugal.

Rui Bastos disse...

Não podia estar mais de acordo. Vou sem dúvida procurar por esse Norberto Morais, obrigado!