sábado, 9 de maio de 2015

Livros infantis


Como aspirante a tentativa de escritor amador, sei bem a dificuldade de escrever o que quer que seja. Até as coisas que escrevo aqui para o blog dão trabalho, demoram tempo e provocam-me ocasionais dores de cabeça, imaginem como não será para contos e afins. Mas sabem o que é que é mesmo difícil de escrever?

Histórias para crianças. Sim, mais rapidamente escrevo um artigo científico do que uma história infantil. Vamos é fazer já aqui uma distinção: quando falo de escrever uma história infantil, estou a falar de algo decente. Não estou a falar de nenhum Alice no País do Cancro, não é? Qualquer macaco pode escrever algo que seja publicado, mas o Pedro Chagas Freitas também "escreve" muitos "livros" e não é por isso que o considero um escritor decente.

Não, aquilo de que estou a falar são coisas com qualidade. Livros em que vocês peguem, dêem uma vista de olhos e pensem "eu lia isto aos meus filhos". Histórias boas, com padrões de qualidade tão elevados como os que eu aplico a qualquer livro que me apareça a frente.

Com isto esclarecido, podemos continuar a nossa conversa. De onde é que acham que vem a dificuldade? As histórias são sempre relativamente simples e lineares, sem grandes invenções. As ilustrações, que podem ser fantásticas, também não são complexas. Então qual é o problema?

O público. Eu sei, resposta cliché, mas tenham calma. Convenhamos, seja para o que for, o público mais complicado que podemos apanhar são crianças. Brutalmente honestas, ainda em desenvolvimento, normalmente com poucos filtros e um excesso de curiosidade que só lhes faz é bem, mas que nos trama a nós. Um público que se podia pensar como simples e fácil.

Grande erro. As crianças são tudo menos simples, antes pelo contrário!, conseguem ser criaturas bastante complexas, que pensam de formas que nós nem sequer conseguimos compreender. Daí aquelas saídas que aparecem de vez em quando, aparentemente aleatórias e que ficam quase sempre por explicar, mas que as crianças debitam com toda a segurança do mundo.

É esse o público. Ao escrever uma história infantil é preciso, então, ter cuidado para não se exagerar na simplicidade. Ou em não deixar as coisas demasiado explícitas. São crianças, não são jumentos. Mas por outro lado falta-lhe toda uma componente de compreensão simbólica que nós temos a todo o vapor!

Este tipo de escrita torna-se então num delicado equilíbrio entre várias coisas, raramente fáceis de acomodar ao mesmo tempo nos sítios em que deviam ficar. E no meio de tudo isso é preciso criar uma história que tenha interesse. E que fique realmente bem escrita, não só "bem escrita o suficiente".

Não é fácil. Eu já o tentei várias vezes e tenho bastantes dificuldades, principalmente por falta de hábito - o meu estilo habitual é tudo, menos adequado a crianças - mas também por uma incapacidade inata em escrever daquela forma. Tenho que fazer um esforço adicional, porque não é algo que me saia naturalmente, como acontece a um amigo meu (o meu colega de Artes no museu que em emprestou uns livros há uns tempos, lembram-se?), que tem um jeito danado. Até parece fácil.

Mas não é. E se há tipo de livro que seja complicado de escrever, é o infantil, sem sombra de dúvida. Porque depois, ainda por cima, as histórias têm que ter conta as ilustrações, e tudo se torna num jogo repentino e muito mais complexo.

Eu prometo tentar acabar uma história infantil, pelo menos, mas não é fácil, nada fácil. E vocês, o que acham?

3 comentários:

Anónimo disse...

Confesso que a minha ideia é que só somos realmente capazes de escrever para crianças depois de sermos pais e lhes aconchegarmos as almofadas com histórias para dormir.

Acho que antes, eu pelo menos, não serei capaz.

Já dizem os mestres do futebol: jogar simples e bem é difícil. Passa-se o mesmo com a escrita para crianças. Escrever algo que para quem leia é fácil dá muito trabalho e exige uma certa sensibilidade que acho que ainda não tenho.

Conheço uma trintona que me mostrou uma coisa acabada e dizia que era um conto infantil.

Eu olhei para aquilo e perguntei-lhe logo se aquilo era para crianças que ainda não sabiam sequer ler; tal a bebezeirada de conto...

É muito difícil, eu próprio já tentei e começou-me a sair algo merdoso...

Bom post!

Abraço
Francisco Fernandes

artur coelho disse...

alice no país do cancro? olha que isso pode ser uma mina de ouro!

Rui Bastos disse...

Francisco, não diria tanto, mas que é difícil, é... Pelo menos para escrever algo bom. Escrever algo assim, como dizes que essa pessoa te mostrou, não é complicado!

Artur, mas por quem sois, isso existe: http://www.fnac.pt/Alice-no-Pais-do-Cancro-Martine-Hennuy/a354066 !!