quarta-feira, 15 de abril de 2015

The Cabinet of Dr. Caligari




As coisas que vou encontrando pela net de vez em quando surpreendem-me. Mas este filme expressionista alemão conseguiu superar todas as minhas expectativas. Feito há quase cem anos (1920), é mudo, a preto e branco, e tem um paradigma completamente diferente do que é usado nos filmes hoje em dia.

As representações são exageradas, os cenários tendem para o surreal são quase chocantes e a história brinca com os nossos conceitos de certo, errado, real e imaginário de uma forma fantástica.


A história base é a do Dr. Caligari, um hipnotista claramente louco (e parecido com o Penguin de Danny DeVito) que usa um sonâmbulo para cometer uma série de crimes. A realidade, no entanto, pode ser pior... ou melhor. Depende do ponto de vista. E parece que o twist final foi introduzido no filme à revelia dos argumentistas, o que não lhe tira a força, embora possa realmente dar interpretações completamente diferentes à história.

Dividido em vários actos, como se de uma peça de teatro se tratasse, esta divisão lógica dá-lhe um ar de deturpação das clássicas tragédias gregas: tem um prólogo e um epílogo e tudo. Só que em vez de mascarar um actor para o tornar semelhante aos deuses e assim contar uma história divina mais próxima da nossa realidade, The Cabinet of Dr. Caligari exagera as suas para as afastar emocionalmente do espectador e com esse distanciamento permitir uma visão muito mais crítica dos acontecimentos.

A própria exageração dos cenários também contribui para isso mesmo. É claramente o nosso mundo que ali vemos, mas distorcido, mais rígido e fantasiado, mas também mais literal, com sombras e luzes pintadas directamente nos cenários. O filme faz com o que espectador identifique o cenário, mas não deixa que o tome como real. O que ali se vê é uma história que nos está a ser contada.


Isto dá mais força aos acontecimentos e também obriga a uma maior atenção. O que é que diferente do normal? Que pormenores é que são relevantes? Junta-se o mistério de algo desconhecido à excitação de descobrir algo novo, sem se querer perder a história que se desenrola à nossa frente.

Digo-vos que não esperava uma experiência tão interessante nem, de certa forma, tão intensa. Ainda por cima juntava-se a música a tudo isto, também ela arrepiante e complementar da acção e do ambiente, e que me deu uma estranha sensação de imersão à distância. Senti-me não dentro da acção, mas ao lado da acção.

A estrutura lógica também ajuda, pois nunca deixa perder de vista a linha de pensamentos que se está a seguir. Por muito embrenhado que se esteja no filme, a certa altura aparece um ecrã a dizer "Acto x" e somos subitamente atirados para trás e sentados no nosso lugar, conscientes de que queremos saber mais.

O ambiente é estabelecido logo no primeiro acto. Com a música a encaixar perfeitamente, somos apresentados a cenários surrealistas e góticos, com pendor decadente. Até me sinto um bocadinho mais snob depois de escrever a última frase, mas a ideia é mesmo essa. É uma vertente do expressionismo em que se nota a Alemanha, rígida, austera e com emoções tão vincadas que chegam a parecer artificiais.


Snobismos à parte, além de nos apresentar Caligari, o primeiro acto também introduz o narrador e protagonista, Francis, e Cesare, o sonâmbulo mais arrepiante da história do cinema. De olhos extremamente encovados e postura rígida, esta personagem vai-me ficar na memória durante muito tempo, graças à excelente representação de Conrad Veidt (que depois de fugir da Alemanha Nazi fez frequentemente de Nazi em filmes americanos!).

No segundo acto começa a acção realmente a desenvolver-se em força. Dá-se um assassínio, inexplicável na até ali pacífica cidade, e tudo começa a descambar da melhor forma possível. Foi aqui que notei de forma mais intensa o expressionismo, a visão subjectiva da realidade que atravessa todo o filme e que tem um momento brilhante na cena do assassínio.

O próximo acto e meio é puro desenvolvimento, com várias peripécias incluídas e uma qualidade de argumento acima da média. Mas as coisas começam a ficar realmente interessantes na última metade do quarto acto, quando a história dá uma reviravolta sobre si própria, tão bem feita e tão chocante que fiquei a duvidar de mim próprio e quase que andei com o filme para trás para ver se tinha perdido alguma coisa.


No entanto os meus receios foram tranquilizados quando uma personagem começa a alucinar palavras, noutra cena fantasticamente elaborada. E para terminar em beleza, o resto do filme é um clímax alargado em que o contraste com os acontecimentos anteriores é enorme.

Agora, se o que se diz é verdade, e este twist final não era suposto existir, aquilo que tenho a dizer da história é que é um excelente retratar de ideias sobre autoridade, medo, livre-arbítrio e insanidade (numa mensagem que até achei parecida à d'O Último Alienista, de Machado de Assis). Mas contando com o final torna-se mais numa reflexão sobre a nossa capacidade de questionar a realidade e os que nos rodeiam. Há interpretações mais políticas, mas parecem-me exageradas e forçadas, se querem que vos diga.

Por fim, a sensação com que fiquei foi a de ter visto um excelente filme, repleto de pormenores fascinantes e que me deixou uma enorme vontade de ver mais coisas do género. Já sei que o actor que faz de Cesare fez pelo menos outro filme perturbador, no qual fiquei obviamente de olho. O que eu queria mesmo era ver esta qualidade e esta dedicação às ideias em mais filmes actuais. Parece-me que o cinema é um meio que preza cada vez mais o realismo - até os filmes de super-heróis que andam com as cuecas de fora a salvar o mundo são feitos com o intuito de serem realistas - em detrimento das histórias, o que não é necessariamente mau nem necessariamente bom.

Em certos filmes faz todo o sentido. Noutros nem tanto. E um total desprendimento do realismo para melhor explorar uma história é algo que a mim me faz todo o sentido, mas talvez eu tenha tendência para o expressionismo... Enfim, não faz mal, peguem é em vocês e vejam este filme, porque garanto-vos que vale mesmo muito a pena.


2 comentários:

artur coelho disse...

o gabinete do dr. caligari é fabuloso. mas só um reparo: a estética não tende para o surrealismo. insere-se dentro do expressionismo. o filme transpõe para o cinema a estética do franz marc, george grosz ou max beckmann. se vires os quadros deles a ligação torna-se aparente.

Rui Bastos disse...

Sim, surrealismo não fica muito correcto... Eu ando-me a esforçar, mas estes movimentos artísticos ainda não me estão bem definidos!

Gostei particularmente de ver luz e sombra pintadas directamente nos cenários. É uma ideia tão simples que provoca uma imagem tão forte!