quarta-feira, 29 de abril de 2015

Batman: Ano Um (Batman #1)


Argumento: Frank Miller
Arte: David Mazzucchelli, Richmond Lewis
Tradução: Paulo Moreira

Sinopse

Opinião: Volta e meia faço releituras. Neste caso nem é bem, que ler um livro numa língua ou noutra são coisas diferentes, mas pronto. O que interessa é que há alguns livros que leio mais do que uma vez. E nunca me espanto com o quanto a minha opinião muda.

A sério, leiam a minha opinião de há dois anos sobre este mesmo livro (só que lido em inglês). Já está? Continuemos então. O que é que eu posso dizer? Praticamente só concordo com o facto de que a história é mais sobre o Gordon do que sobre o Batman. De resto? Vamos recomeçar.

Primeiro, a coisa que mais chateou ao reler essa opinião: disse que fazia falta um vilão a sério. Estúpido. Não faz falta nenhuma. Não é esse o objectivo. Ano Um é uma impressionante história de origem que mostra a essência do Batman: alguém que surgiu para proteger uma cidade. Não para a proteger dos supervilões psicopatas, mas simplesmente para a proteger.

E porquê? Porque Gotham é uma cidade que podia ser real. Uma cidade onde o crime é algo banal e tão comum que não é preciso surgir um Joker, nem um Lex Luthor, nem um Magneto, nem um Loki, nem um Thanos, nem nada que se pareça. Gotham precisa de ser salva dos barões da droga, das máfias, dos violadores, dos assaltantes de esquina, dos assassinos, dos políticos corruptos.

É quase religioso. Gotham precisa de ser salva porque peca, quer queira quer não. E da mesma forma que as religiões têm diabos e demónios afins para que as pessoas tenham medo das consequências, também Gotham ganha o seu próprio demónio, Batman, que rapidamente se apercebe que tem de provocar medo, se quer ganhar.

Mas depois a maior parte da narrativa não incide no Batman, mas sim em Gordon. Ou melhor, é dado mais destaque a Gordon, pelo menos. E por muito que eu me tenha queixado da outra vez, agora percebo que faz sentido. É que Gordon - e tenho a certeza de que isto já foi analisado quinhentas mil vezes - e Batman são na realidade aquilo que o outro gostava de ser. O Batman teve que encarnar os seus próprios medos para se tornar eficaz na luta contra o crime, e a sua figura de super-herói acaba por atrair cada vez mais vilões; Gordon, por outro lado, sente-se impotente por ser apenas um homem cumpridor da lei no meio do ninho corrupto que é Gotham.

As histórias paralelas destas duas personagens mostram duas evoluções fascinantes, quase espelhadas. Dois homens que de certa forma se arrependem daquilo que são, mas que têm noção de quais são os seus papéis e os cumprem, apesar de tudo.

A história de Frank Miller ganha assim um novo significado para mim, que a tinha achado mediana. O grafismo de Mazzuchelli também me parece muito mais adequado, não propriamente indefinido, mas impreciso, a revelar no desenho aquilo que Gotham é, uma cidade sem linhas direitas nem linhas tortas, nem recheada de negros nem de brancos, apenas de cinzentos.

Ano Um revela-se uma história muito melhor do que aquela que me lembrava, e uma que aconselho definitivamente, especialmente se forem fãs do Batman. Pode não ser fácil lidar com a falta de protagonismo de Batman, ou a com ausência de um vilão concreto, ou até com a inexperiência do Cavaleiro das Trevas, mas uma leitura mais atenta revela muito mais do que isso: um grande livro.

4 comentários:

Jules Pijey disse...

Lemos isto há dois anos? :O
Mas... não pode... 2 anos?! Bolas...

Rui Bastos disse...

Feeling old yet?

Jules Pijey disse...

E de que maneira! Não estava nada a contar com dois anos desde que lemos isto! Bem, parece que relerei!

Rui Bastos disse...

Só fazes é bem!