sábado, 25 de janeiro de 2014

Estantes Emprestadas [1]: Literatura Grunge [2/2]


Está na altura da segunda metade da crónica escrita pelo Jorge, e cuja publicação comecei há uma semana. Depois de uma introdução e uma perspectiva histórica, está na altura de entrar na parte em que a literatura se junta ao grunge numa fusão gloriosa e omnipotente QUE DOMINARÁ O MUNDO... Está bem, esta última parte fui eu que inventei, mas aposto que ele não se importava muito.

Sem mais demoras, um obrigado ao Jorge por ter aceite o convite, e já agora por ter executado tão bem. Lá vou ter que acrescentar alguns livros à minha lista, não é verdade?


Pensar em flanela e nihilismo
Passada esta “nota histórica”, quem pensa que o grunge era apenas sobre música agressiva e deprimente, que se desengane; este movimento foi expandido de uma forma brutal, que influenciou a música a ouvir, a roupa a vestir e até os pensamentos a ter.
E, visto que este é o tema desta crónica (e deste blog), os livros a ler? Pois, aí está o ponto-chave a que eu queria chegar; se pensarmos apenas na sua influência literária de forma bastante literal e pouco aprofundada, encontramos, com algum desapontamento, um género exclusivamente australiano, denominado Grunge Lit, onde a escrita semi-autobiográfica decidiu “apanhar boleia” do excesso emotivo do grunge e do sucesso deste na altura, dando origem a romances onde a “existência real e suja” e “a libertação de emoções” eram os principais motes na escrita.
Sem grande surpresa, este género nunca conheceu qualquer sucesso além-fronteiras e dele não reza a História; assim sendo, ficamos por aqui? O grunge foi muito giro e influenciou absolutamente tudo na década de 90, menos a Literatura e o seu muro impenetrável?
Pois, se calhar não... A verdade é que não se pode olhar para a influência deste movimento como algo assim tão literal; a verdade é que o grunge introduziu uma forma de pensar, em conjunto com alguns ideais muito próprios, com o objectivo de “pregar” a raiva, o desejo de provocação e o mais puro nihilismo, com a introdução de elementos como o sarcasmo negro e constante.
Desta forma, já é inegável verificar uma influência deste movimento na Literatura da época (e até de períodos anteriores, mas já lá vamos).
Antes de mais, é importante referir que antes do grunge influenciar o que quer que seja, os livros também tiveram um papel importante a moldá-lo; O Perfume, clássico de Patrick Suskind, pelo seu retrato íntimo de um protagonista renegado pela sociedade pelo seu “dom”, ou Junky, pelo seu relato destrutivo e nihilista de uma vida movida a drogas, foram referidos por Kurt Cobain como os seus livros preferidos (sendo que o primeiro deu origem a “Scentless Apprentice”, dos Nirvana) e grandes influências que lhe moldaram a sua forma de pensar e de fazer música, que por sua vez influenciou toda uma geração.
Para além destas, outras obras, pelos seus elementos destrutivos ou anti-sociedade, foram referidos por importantes líderes do grunge, como Eddie Vedder ou Chris Cornell como obras que lhes mudaram a vida e moldaram a mentalidade; estou a falar de livros “potentes” como A Clockwork Orange, de Anthony Burgess, ou 1984, de George Orwell.
Portanto, já percebemos qual foi a influência inicial da Literatura sobre o grunge, sob a forma de obras que basicamente formaram a mentalidade do movimento; mas e a influência oposta? Ou seja, que obras transmitem exactamente os “ensinamentos” que esta época tão avidamente procurava?

Livros grunge, ou como Pahlaniuk mudou o mundo
Primeiro que tudo, uma palavra para as obras que ganharam novo fôlego com o grunge; livros como Requiem for a Dream, de Hubert Selby Jr, registaram um aumento de vendas brutal durante a época em que o grunge reinou, devido às suas temáticas depressivas e nihilistas que se identificavam tão bem com o pensamento da época, mesmo tendo-lhe antecedido.
Mas o importante não é isso; o importante é American Psycho. Este livro, editado em 1991 (ano da supremacia total do grunge) foi a primeira prova de que o desejo de provocação social estava bem aceso, inclusive na Literatura da época, onde é inegável, para quem ler a obra, que transparecem os mesmos elementos defendidos por todos os grungers dos anos 90, daí que o sucesso deste romance seja também associado à época em que foi lançado.
Outro livro que é impossível esquecer, inserido neste contexto, é a magnum opus de Chuck Pahlaniuk, Fight Club, lançado em 1996 e que mudou o panorama literário da época por completo. O seu relato de libertação, ao mesmo tempo nihilista e apetecível, regado a reflexões destrutivas e personagens depressivas e inconstantes parece ter sido a definição de grunge e, se não o foi, é pelo menos a obra literária que melhor personifica o movimento que a influenciou inegavelmente.
Passando para um género diferente, Jack Frusciante Has Left the Band é uma obra italiana que, à primeira vez, não parece nada de especial, merecendo o rótulo de “romance adolescente”, mas os seus contornos trágicos e “auto-descoberta” com elementos da adolescência que seguia o grunge tornam a obra muito mais interessante, no ano em que este movimento iniciou o seu declínio (1994).
À medida que nos aproximamos da década de 00, as influências do grunge vão diminuindo, devido à perda de relevância do próprio movimento, que se começou a ver ultrapassado por uma nova vaga de Metal que se metamorfoseou no bem-sucedido emo e pelas primeiras vagas do indie, que deu origem à actual geração hipster.
No entanto, ainda se notam algumas obras com influências do grunge, como o famoso The Perks of Being a Wallflower, embora já impregnado com elementos típicos da cultura pop que dominou a transição entre os milénios.
Desta forma, é fácil perceber que o grunge foi muito mais que um género musical passageiro, tendo sido um movimento por pleno direito que influenciou milhões de pessoas de uma forma permanente, mesmo que o seu sucesso tenha sido efémero (talvez mesmo por isso), dando-lhes uma mentalidade e ideais que ainda hoje se reflectem em vários aspectos da nossa cultura contemporânea.

Em jeito de conclusão, resta-me agradecer ao Rui pela oportunidade que me proporcionou, ao escrever sobre dois temas que me são tão pessoais e acarinhados, sendo eu um leitor ávido e um grunger assumido e espero que não se aborreçam com esta crónica (tentei manter o nível de detalhes ao mínimo possível), antes que aprendam com ela, tal como eu aprendi com figuras como o Kurt Cobain ou o Chuck Pahlaniuk.

2 comentários:

Ana/Jorge/Rafa/Júlia disse...

Ora essa! ;) O Grunge a dominar o mundo, gostei xD

Jorge

Rui Bastos disse...

Eu sabia que havias de apreciar o devaneio xD