quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Gardens of the Moon (Malazan Book of the Fallen #1)

Título: Gardens of the Moon
Autor: Steven Erikson


Opinião: Nada melhor para começar o novo ano do que cascar num livro. Foi pura coincidência esta opinião ter calhado para este dia, mas não fica nada mal.

Afinal, mais do que entrar com o pé direito, gosto mesmo é de refilar. E se já aproveitei toda uma crónica, de forma não muito subtil para dar início às hostilidades, neste primeiro texto de 2014 vou ter que me queixar mais um bocadinho.

Mas antes de partir para a porrada gosto sempre de salientar os pontos fortes, para não me acharem demasiado agressivo.

E este livro tem alguns. Uma história cativante, quando se consegue perceber minimamente, e uma mão cheia de personagens interessantes, incluindo o Kruppe, o misterioso homem anafado e aluado que anda a cirandar pelo livro, em contacto com montes de outras personagens e claramente envolvido em montes de acontecimentos, sem parecer mais do que um wandering fool.

O resto das personagens não me chamou muito a atenção, embora tenha gostado de mais algumas. A verdade é que Kruppe é de tal forma carismático que consegue roubar completamente qualquer cena em que apareça, eclipsando quase na totalidade todas as outras personagens. Durante a leitura, este homenzinho estranho serviu-me de âncora e de ponto de foco no meio do marasmo intricado e incompreensível que é Gardens of the Moon.

Além das personagens, concedo que o worldbuilding é bom. Não é excelente, e muito menos fácil de apreender, mas ele está lá, e o mundo criado por Erikson é de facto interessante. Entre cidades flutuantes, deuses, feiticeiros, monstros variados, mais raças do que é humanamente possível decorar, e intrigas palacianas demasiado complicadas, o mundo acaba por até nem ficar muito mal caracterizado.

Fica é mal explorado. Mas se vamos partir para a fase de dar nas orelhas, vamos fazer isto como deve ser: plot twists ridículos, magia como solução para todos os problemas, inconsistências na forma de actuar das personagens, motivações fracas ou inexistentes para muitas delas, um início absolutamente terrível e demasiado confuso, um fim execrável, uma completa ausência de closure... Digamos que não fiquei fã do livro.

Entre outras coisas, o livro pareceu-me mais o meio de uma saga do que o começo. Não há grande contexto, o ritmo é brutalmente contrastante (de 100 e tal páginas sem acontecer nada de especial, passa a 20 páginas completamente recheadas de acontecimentos que mudam tudo), e não há propriamente um fim, mas sim um momento a partir do qual tudo acontece a uma velocidade estonteante, para logo se imobilizar por completo.

As críticas que tenho visto dizem que Erikson é uma espécie de nível avançado de Fantasia. A ideia é que depois de se ler George R.R. Martin, Robert Jordan, Robb Hobb e outros autores que tais, mais "fáceis" de digerir, se pode passar à saga de Erikson, mais densa e complexa.

Eu cá digo para terem juízo. Normalmente chamo a livros como este "tão maus que só podem ser brilhantes". O que se passa é que ninguém acredita que uma saga planeada para 10 volumes, com outras obras à volta, e bla bla bla, contenha livros tão maus como este. Então só pode ser brilhante, nós é que ainda não chegámos lá!

Querem provas? Li algures que um tipo leu isto, não percebeu nada, mas gostou bastante, e que então leu outra vez, e já percebeu mais um pouco, mas que depois da terceira leitura já percebia mais ou menos a história e decidiu avançar para o segundo livro. Caríssimos, isto é parvo. A mim aconteceu-me o mesmo, depois de ler estas 700 páginas, não percebi grande coisa do que se passou, mas mesmo que tivesse gostado da escrita (não gostei, não) e conseguisse encontrar qualquer coisa para me prender a sério (uma personagem como o Kruppe, fixíssima e que fala de si própria na terceira pessoa, não chega), não ia gostar.

E de facto não gostei mesmo nada deste livro. Logo no início há um exército que é dizimado por um deus que vive numa cidade flutuante, e uma das personagens é cortada ao meio e fica obviamente para morrer. Duas páginas depois a sua alma foi transferida para uma marioneta de madeira, e o tipo enlouquece e nem sei. Depois o sistema de magia é estranhíssimo, nunca é minimamente explicado, e serve para resolver todos os problemas... E nisso o Sanderson é que tinha razão (1, 2, 3).

Os deuses aqui também têm uma intervenção bastante directa, sendo convocados e até usados e ameaçados por meros mortais, por dá cá aquela palha. E não há nada que salve uma linha narrativa que leva a um beco sem saída, sobre um tipo que é o Coin Bearer, uma ferramente do deus duplo da sorte, Oponn. Esta história está em build-up durante dezenas e dezenas de páginas ao longo de todo o livro e depois... não tem relevância nenhuma.

Enfim, uma série de coisas que me chatearam e que não são de forma alguma compensadas pelas coisas boas que mencionei ali em cima. A brilhante ideia do Rafa está-se a revelar um suplício, e não pego no segundo livro tão cedo. É até provável que não lhe pegue de todo!

3 comentários:

Ana/Jorge/Rafa/Júlia disse...

A partir de metade, começou a prometer e depois... Não... A cena do Coin Bearer e todo o final com o Jaghut foram muito maus.

Jorge

Rui Bastos disse...

É que um mau princípio, um meio com potencial, e um mau fim, resultam num mau livro!

Anónimo disse...

Livro não recomendado. À exceção do Kruppe, todos os personagens são fracos, inócuos. Os dois personagens que podem ser considerados os principais não fazem absolutamente nada além de serem salvos pelos outros (inumeras vezes). O livro é extremamente confuso e, em diversos pontos, simplesmente não faz o menor sentido (SPOILER: cena em que o Paran liberta os Hounds da Dragnipur; a sequência do Jaghut na "fête" da Simtal;...) Tais pontos são tão ilógicos que chegam a ser irritantes e tornam a leitura desagradavel, além de te forçar a prosseguir sem ter entendido o que aconteceu. O triste é que a estória em si não é ruim, contém algumas idéias bastante interessantes - mas que acabam sendo quase que completamente estragadas por falhas na execução e escrita. Se a série inteira tivesse 3 livros, talvez eu terminasse de lê-la. Tendo 10, não. De jeito nenhum.