sexta-feira, 9 de maio de 2014

As Cidades Invisíveis


Autor: Italo Calvino


Opinião: Li exactamente um livro de Calvino. Duas vezes, com um intervalo de quatro anos. Da primeira vez escrevi uma opinião que dizia pouco, mas que deixou bem claro o que eu achei do livro: uau.

Vou dar um desconto ao meu eu de dezasseis anos, que ainda não se expressava como deve ser. A verdade é que gostava de falar com esse eu para discutir este livro. Talvez soubesse o que dizer. É que eu, agora, não sei.

Todos nós, leitores, encontramos muita coisa ao longo das nossas vidas: livros maus, livros excelentes, livros hilariantes, livros terríveis, enfim, de tudo um pouco. Mas de vez em quando lá surge um livro que não só quebra as expectativas como as estilhaça completamente. Um livro de tal forma inclassificável e que nos impressiona com tanta intensidade que ficamos, literalmente, sem palavras.

Acho que raramente aconselhei este livro a alguém. Pouco ou nada falo dele. Mas lembro-me dele com frequência. Das conversas filosóficas e metafísicas entre Kublai Khan e Marco Polo e da imaginação prodigiosa deste último, obtida directamente da fonte: o grande Calvino.

Sim, este livro fascina-me. Sim, este autor fascina-me. E não consigo explicar o porquê, é uma atracção irresistível, quase irracional, que sinto por este livro, o que até é estranho, tendo em conta que As Cidades Invisíveis não tem praticamente nada daquilo que mais gosto de ver num livro: uma boa história, personagens bem desenvolvidas, coerência, sangue e tripas...

É um livro especial. Nele, Calvino usa a personagem de Marco Polo como veículo para descrever cinquenta e cinco cidades, algumas realistas outras impossíveis ou deslocadas do seu tempo, mas todas fascinantes e com nome de mulher.

As cinquenta e cinco descrições são curtas, e não há qualquer tipo de história: nada liga as histórias entre si, nem com Polo ou Kublai para além de serem os sítios por onde o primeiro supostamente viajou e que o segundo supostamente governa. A escrita não está nada de especial, suspeito que por causa da tradução, mas mesmo assim o livro fascina-me.

Os curtos trechos de conversa entre Kublai e Polo raramente têm algo de realmente útil para o desenvolvimento da "história", servindo apenas como momentos de discussões filosóficas. Conversas essas que, surpreendentemente, não aborrecem.

Mas tudo isto é completamente irrelevante face às cidades que Polo descreve. "Tudo isto" também inclui o que quer que seja que estejam a fazer. A sério. Vocês não querem perder isto, é pura e simplesmente demasiado bom. E ainda por cima o livro lê-se num par de horas, que é pequeno!

E para além das descrições belíssimas das cidades, cada uma encerra um simbolismo muito próprio e é um pouco "um monstro por si só". No melhor dos sentidos possíveis, acreditem.

Talvez a melhor forma de descrever este livro seja chamar-lhe surreal. Ou surrealmente brutal. Qualquer coisa desse género. As descrições intricadas contidas em meia dúzia de parágrafos ajudam à sensação de deslumbramento, e os vários tipos de cidades com as suas sociedades perfeitamente ajustadas não são nada menos do que absolutamente fascinantes!

Calvino, para mim, e como já devem ter percebido, mais do que um autor a ler é um autor a reter. Vale a pena, este tipo, e tenho a certeza que o resto dos seus livros não me vão desapontar. Pode acontecer e eu ficar tramado, mas acho sinceramente que não. É demasiado bom!

2 comentários:

Jules Pijey disse...

És terrível pah! Eu tenho um curso para fazer, sabes? E assim é possível que por segunda feira isto já esteja lido!

Rui Bastos disse...

I know nothing :D