sábado, 31 de maio de 2014

Os gostos são para se discutirem

Se há coisa que gosto de fazer, é discutir. Não no pior sentido da palavra, normalmente não tenho qualquer interesse em trocar galhardetes com alguém só porque sim. O que eu gosto é de debater, de trocar impressões, de conversar, no fundo.

Por isso não gosto nada quando estou a falar com alguém, seja pelo que for, e a certa altura sacam do argumento: “gostos não se discutem”. É uma forma simples e eficaz de matar uma conversa e de esse alguém se descartar de uma argumentação. Ou de me aturar.

Se a opção for a última, pronto, é legítimo. Qualquer coisa serve para evitarmos alguém. Mas quando esse “argumento”, que é mais uma sentença do que outra coisa, é usado a meio duma conversa sobre, digamos, livros… Bem, aí está o caldo entornado.

Eu imagino que o propósito dessa sentença seja o que Saramago tinha em mente quando disse que tinha aprendido a não convencer ninguém: não devemos forçar ninguém a pensar de nenhuma forma em particular, e muito menos tentar impingir a nossa forma de pensar. Isso é basicamente opressão.


Mas no entanto nada vejo de mal em tentar convencer o outro, a bem. Não com o intuito de forçar ao que quer que seja, mas de forma leve e amigável, digamos. E mesmo assim, "gostos não se discutem" continua a ser usado para matar conversas. "ah, os livros da Stephenie Meyer são os melhores de sempre", "não são nada, são uma grande bosta", "bem, gostos não se discutem".

Não, não e não. Os gostos discutem-se, claramente! Têm que, por exemplo, estar devidamente fundamentados. Além de que não vejo problema nenhum em tentar perceber o outro, e porque raio está ele a gostar de determinado livro (e onde).

É por isso que eu agradeço que comentem aí pelo blog, ele está cá para essas coisas! Quase tudo o que escrevo para aqui são opiniões, que tento sempre apresentar da forma mais fundamentada possivel, mas podem duvidar de alguma coisa.

E dessa forma é porreiro "tentar-me convencer" do que quer que seja... É pouco provável que me façam realmente mudar de ideias, mas talvez veja as coisas a uma nova luz. Isso é "discutir os gostos". Que, lá está, não prejudica nada...

Agora vejam lá se discutem coisas, e as debatem, e se tentam convencer uns aos outros das mais variadas coisas... Eu cá continuarei a fazê-lo, diga o ditado popular...

5 comentários:

Marco Lopes disse...

Não podia estar mais de acordo contigo Rui. Adoro uma boa discussão (no bom sentido) em que se esgrimem argumentos e em que se pode sair convencido, convencer ou então apenas ter tido o prazer de uma boa conversa. Pena que muitas pessoas assim não pensem.

Sobre esta questão dos gostos a melhor que ouvi foi "Gostos não se discutem, perdoam-se", fartei de rir quando me disseram isto e em alguns casos é o que resta fazer.

Um abrço

Rui Bastos disse...

É isso mesmo. A mim faz-me confusão a noção de que os gostos são sagrados e intocáveis, e quando uma pessoa começa a ter que defender os seus gostos, está na altura de parar a conversa...

asesereis disse...

Também depende do assunto e das pessoas.

Por exemplo, se eu gosto de laranjas e alguém não as suporta nas suas pupilas gustativas vou argumentar para quê?

E depois existem aqueles calhaus que nasceram humanos e que se riem doutos de desprezo quando nós lhes tentamos explicar algo. De que vale explicar alguma coisinha a "pessoas" deste tipo?

Quanto a livros, (Longo suspiro...) a verdade é que muitas poucas pessoas sabem ler na verdadeira acepção da palavra.

Espetem um romance como o D. Quixote a alguém, desafiem-nos a ler Charles Dickens, Alexandre Dumas ou José Saramago e levam com respostas do tipo "Esse livro é muito grande", "Esse livro é muito triste", "Esse autor não foi o que criou o D'Artacão?" e "Esse tipo não sabe escrever".

Em Portugal, um dia os escritores ainda vão ter que pagar para que alguém leia os seus livros porque cada vez mais as crianças são habituadas a tudo menos a ler.

O que ainda vai safando alguns escritores são os concursos de novas obras. Existe um primeiro filtro de críticos que estão habituados a ler coisas boas e, por isso, atribuem prémios a quem verdadeiramente os merece (Filipe Faria, GM Tavares...), mas daqui a uns anos nem isso safa...

Beky disse...

Asesreis, concordo contigo no que dizes de desabituar as crianças a ler, e acho que a escola tem um GRANDE papel nessa falta de leitura. A começar no infantário: porque raio há uma hora da sesta, uma hora para ver desenhos animados, e não há uma hora do conto, em que se pegue num livro e se leia às crianças?
E depois há o pesadelo dos livros obrigatórios, em que impingem aos miúdos coisas que não têm idade para entender. Como raio é que Os Lusíadas se estudam no 9º ano, quando as pessoas têm cerca de 14 anos? Eu detestei cada minuto que fui obrigada a ler Os Maias, e ainda hoje não consegui recuperar da minha repulsa a Eça de Queirós, simplesmente porque fui obrigada a lê-lo numa idade em que não conseguia apreciá-lo...
Quando alguém me diz "eu não gosto de ler", eu respondo "isso é tão estúpido como dizer que nao gostas de ver filmes ou que não gostas de música - de certeza que há um livro que gostes, só tens que encontrá-lo", e este deveria ser o papel das escolas, em vez de obrigar as pessoas a ler, encontrar coisas que eles gostem de ler, para ganharem esse hábito.

(desculpa RUi, vinha comentar o teu post e entretanto de ler os comentários fugiu para isto, mas no fundo era isso que tu querias, rebentar discussões... )

Rui Bastos disse...

Asesereis, concordo mais ou menos contigo. Acho que independentemente das pessoas, é preciso discutir as coisas. Se a reacção delas for essa que dizes, é verdade não há muito a fazer, mas vale a pena tentar, pelo menos, make a sparkle, compreendes?

De resto, estou com a Beky. E nunca tinha pensado nisso assim, mas essa resposta a "eu não gosto de ler" é a melhor que já vi :)

O que me vai safando no meio disto tudo é pessoas como vocês (incluindo o Marco lá em cima e o resto das pessoas com o mínimo de espírito crítico que vou encontrando na blogosfera e não só), que até fazem com que pareça que não somos tão poucos quanto isso!