sábado, 10 de maio de 2014

Estantes Emprestadas [5] - A nossa literatura vista de fora



Se há coisa de que me orgulho é de ter um bom manancial de amigos e amigas completamente loucos da cabeça. No melhor sentido da expressão, claro. Fascinantes talvez seja o termo mais correcto. A autora da crónica de hoje é uma dessas pessoas: chama-se Rebeca Bonjour, também conhecida por Beki, e é mais ou menos muita coisa - jornalista, skater, curiosa, portuguesa, francesa, polaca por afinidade, ligeiramente louca e mais uma série de coisas.

Apenas três frases e já consegui chamar-lhe louca duas vezes. Desculpa Beky. Não duvidem de que gosto muito dela, a verdade é que conheço poucas pessoas de letras com quem me dê tão bem. E além de gostar das suas perguntas sobre Ciência, embora já não mas faça há uns tempos, também gosto bastante da sua forma de pensar. E da sua escrita. A sério, já vão ver, é muito boa. Aprocheguem-se, aprocheguem-se!



Quando o Rui me pediu para escrever uma crónica para o blogue dele, abordou-me com umas palavras que equivalem mais ao menos a um “ah e tal, tu que és muito internacional…”, pelo que não posso começar esta crónica sem falar um bocadinho de mim.

Digamos que fui projectada em avanço no espírito de nacionalidade europeia que cada vez mais se ergue. De mãe portuguesa e pai francês, nasci na terra dos croissants e mudei-me para a dos pastéis de nata aos cinco anos, onde cresci, não deixando no entanto de alimentar cá dentro o bichinho viajador. Por altura da maioridade mudei-me durante um ano para a Polónia e, fazendo jus ao lema de que quem sai uma vez do seu país não consegue parar, mudei-me o ano passado para Paris, onde vivo actualmente. Posto isto, a ideia do Rui era aproveitar-se da minha internacionalidade e fazer-me escrever sobre como a literatura portuguesa é vista lá fora, o que me fez logo pensar em duas ou três coisas que quero partilhar. 

Comecemos então por falar da Polónia. Quantos de vocês conseguem, sem olhar para um mapa, dizer a localização deste país? Aposto que 90% não consegue – fica demasiado longe, tanto a nível geográfico como a nível de importância no panorama nacional. Da mesma forma, a maioria dos polacos não sabem muito sobre o nosso país. Sempre que me anunciava portuguesa tinha que explicar às pessoas que não, não falávamos espanhol, que temos uma língua própria. E aqueles que nos conheciam era mais pelo emblema do nosso país lá fora: o Cristiano Ronaldo, mais famoso do que o galo de Barcelos. 

A par do desconhecimento do nosso país, a Polónia tem um atrofio cultural, que pode ser explicado pelo facto de ter passado toda a História a defender a sua identidade, e pela passagem dos nazis e da destruição que causaram às obras judias, sendo que os judeus formavam uma grande parte da população antes da II Guerra Mundial. A produção cultural polaca é portanto bastante recente, assim como as suas preocupações a este nível. Mesmo assim, acabei por descobrir, na cidade em que vivia (Poznan, uma cidade de estudantes equiparável a Coimbra e que fica na mesma linha de Berlim), um bar português, onde o Instituto Camões (que, para quem não sabe, é responsável pela divulgação da cultura e língua portuguesas no estrangeiro) organizava todos os meses uma noite portuguesa. Para além de terem disponíveis iguarias nacionais e vinho do Porto, nestas noites falava-se em português, partilhava-se tradições e liam-se textos escritos pelos participantes ou de autores conhecidos. O mais espantoso nestas soirées é que havia tantos polacos quanto portugueses, falantes da nossa língua e amantes da nossa cultura. Uma minoria da população que estava efectivamente interessada em estudar e conhecer mais sobre o nosso país! Do outro lado da Europa! O Mistura Bar foi mais tarde substituído por um bar coreano, mas sei que as actividades do Instituto Camões prosseguiram noutros lugares.

Em Paris a história é totalmente diferente. Com um milhão de habitantes portugueses – quase tantos como no Porto, de onde venho – estão fartos de saber quem nós somos (muitas das vezes com uma ideia deturpada, mas isso dava outra crónica). Além disso, a França, e Paris particularmente, são locais culturais por excelência, onde tudo o que seja arte borbulha pela cidade. Quem é que gosta de literatura e não se sente absolutamente fascinado pela ideia de viver em Paris nos anos 20, onde escritores de todas as partes se encontravam aos magotes nos cafés e esplanadas? Ainda hoje se sente a sua presença, por exemplo no Quartier Latin, povoado por dezenas de alfarrabistas. Não são, como ganhei o hábito de apelidar os alfarrabistas portugueses, cemitérios de livros, com obras a cheirar a mofo que mais ninguém quer ler. Além disso, os nossos espécimes nacionais cada vez mais propõe preços que competem com os de uma Fnac, o que arruína por si só a ideia de alfarrabista. Ora nas lojas parisienses sugerem títulos relativamente recentes e interessantes (já apanhei Oscar Wilde, Primo Levi, ou os Harry Potters, por exemplo) a preços tão irrisórios como um ou dois euros. Cheguei mesmo a encontrar livros a vinte cêntimos. Vinte cêntimos!!!! E o mais interessante é que entre estas pechinchas se encontram versões francesas de livros portugueses (muitas das vezes do género Paulo Coelho, que os franceses apreciam muito – diz o meu amigo Lucas, que é brasileiro, que isto é proporcionado pelo facto de o autor traduzir ele mesmo os seus livros, excepto em francês, língua que não fala, pelo que teve de deixar isso para outra pessoa, que conseguiu melhorar a escrita o suficiente para que os livros se tornassem suportáveis – mas às vezes também Saramagos e Pessoas, e até já cheguei a deparar-me com Os Maias escrito na sua língua-mãe. 

Da própria!
Além dos alfarrabistas temos as Fnacs. Num dos cinco andares da minha preferida (há aí umas dez Fnacs em Paris), encontrei uma estante inteira de literatura portuguesa traduzida. Devo dizer que havia autores, nesta estante, que eu própria não conhecia. Podemos ainda falar, neste campo da divulgação da nossa literatura, na Gulbenkian parisiense, que consiste numa biblioteca enorme com livros em português, como é claro, e numa galeria onde se expõem obras lusófonas. Este organismo propõe ainda palestras e outros tipos de actividades para a promoção da nossa cultura. 

Já vimos, portanto, que não faltam em Paris oportunidades para dar a conhecer a literatura portuguesa, mas será que isso tem uma influência nos nativos franceses? Quando cheguei a Paris, em conversa com um colega de trabalho, disse-lhe que era portuguesa, e ele falou-me logo de um escritor que tinha tentado ler há pouco tempo, um psiquiatra… Lobo Antunes?, perguntei. Esse mesmo! Tentou lê-lo mas não conseguiu, era uma leitura pesada, complicada. No meio da minha surpresa genuína confessei-lhe que ainda não lera este autor, mas que sempre me disseram que as suas crónicas eram mais fáceis de digerir. Ele respondeu-me que não conhecia, mas que tinham uma amiga que era louca por Lobo Antunes, que tinha os livros todos, e que lhe ia pedir emprestado. Ora quantos portugueses é que vocês conhecem que tenham lido todos os livros do Lobo Antunes, a sério? E isto alarga-se para outros campos: já vi franceses a ouvir os Táxi, e não há nenhum que não saiba o que foi a Revolução dos Cravos. 

Sem me querer alongar demais, não posso acabar esta crónica sem olhar para dentro. E nós? Como é que vivemos a cultura estrangeira? Quantos filmes franceses ou polacos chegam às nossas salas de cinema? Quantas secções de livros provenientes de algum país existem nas nossas livrarias e bibliotecas? Nada que se compare às parisienses, com estantes para literatura chinesa, espanhola, japonesa, persa, hindu, russa, etc. Na maioria dos casos quase parece Portugal fica mais perto dos Estados Unidos do que da Europa, factor agravado por uma insuficiência de educação para a cultura - a dos outros e a nossa. Mas isso fica para outra crónica.

2 comentários:

asesereis disse...

Muito boa a crónica que a Rebeca partilhou connosco.

Se há coisa que não nos apercebemos muito é que em termos literários o mundo é gigante e hoje em dia quase não temos acesso a qualquer obra francesa que não os clássicos nem temos acesso a muito mais literatura que aquela que as editoras portuguesas vão buscar ao Estados Unidos.

É uma pena...

Em termos literários acredito que a identidade polaca deve ter muito a acrescentar ao mundo, Rebeca.

Uma grande "estante emprestada"...

Francisco

Rui Bastos disse...

Eu também achei ;) E concordo com ambos!