sábado, 3 de maio de 2014

O livro favorito não existe



Antes que comecem a chover acusações do quanto eu gosto de me contradizer, reparem naquele "subjectivamente" e lembrem-se que as pessoas têm direito a mudar de opinião, ainda que não seja bem esse o caso.

Sim, se alguém me perguntar qual é o meu livro favorito, eu provavelmente ainda digo que é o Terrarium, esse épico da ficção científica portuguesa escrito a quatro (talentosas) mãos. Mas tenho noção de que isso é uma mera simplificação. Uma forma de responder sem me perder em deambulações sobre os milhentos livros que já li, apontando falhas e pontos positivos.

Corria o risco de deixar de responder à pergunta, e a passar a tentar convencer alguém de que certos e determinados livros são fantásticos, e a incitar à sua leitura. E não é esse o objectivo. Portanto digo apenas "é o Terrarium, 600 páginas de ficção científica portuguesa escrita por dois dos nossos melhores autores". Chega.

Mas qual é a verdade? Bem, sou de facto um grande fã desse livro, mas é o meu favorito? Depende. Não consigo dizer que gosto mais dele do que da minha edição lindíssima do Kalevala, por exemplo. É impossível compará-los de forma subjectiva, são demasiado diferentes, cada um um campeão na sua área.

Podia fazê-lo objectivamente, mas não quero. Não quero ser objectivo na escolha do meu livro favorito, porque isso destrói à nascença o conceito de favorito. Eu posso achar um livro brilhantemente bem escrito, como os do Mia Couto ou aquele que é para mim um dos expoentes máximos da língua Portuguesa de sempre, o Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira, mas não os considerar para livros favoritos.

Também posso encontrar um livro com uma estrutura narrativa e um enredo primoroso e pensado até à exaustão, como o O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o The Green Mile ou o Cem anos de Solidão, e ainda assim não os considerar para livros favoritos.

É preciso mais do que ser objectivamente bom para ser o meu livro favorito. Acho que falo por todos os leitores, quando digo isso. Quantos de nós não leram já um livro que sabemos claramente não é tão bom quanto isso, mas que nos fascina de alguma forma? Vejam as minhas muitas opiniões sobre livros do Filipe Faria.

Estão a ver o problema? Não digo que todos os leitores sejam assim, mas a minha primeira aposta é que um leitor assíduo mais rapidamente dá uma lista de vinte livros favoritos, do que diz qual é o seu livro favorito de sempre. Não é fácil escolher. E na minha opinião, é impossível.

Um livro pode deixar-me impressionado com a sua abordagem visceral ao horror e a forma como consegue tornar sangue e tripas num objecto literário, e outro pode fazer-me sentir uma empatia tremenda pelos protagonistas na sua demanda épica, enquanto outro ainda me faz esquecer a história que contêm, de tão bem escrito que está. Ao fim do dia, se me perguntarem de qual gostei mais, a minha vontade é dizer os três títulos ao mesmo tempo.

E já nem falo do quão voláteis podem ser estas escolhas de livros favoritos... E se eu amanhã ler um livro que acho superior a tudo o que já li? Muda-se a lista toda. E se ler outro depois de amanhã que me faz pensar "é este! é este!" e depois me lembrar de outro que tenho a meio da lista e que é parecido? Muda-se a lista toda. Isto acontece, e com mais frequência do que aquilo que se possa pensar.

Por essas e por outras, se me perguntarem qual o meu livro favorito, eu respondo que é o Terrarium. Ou o Kalevala. Ou o Flatland. Ou... Ou... Ou...

5 comentários:

Ana/Jorge/Rafa/Júlia disse...

1984, o resto são migalhas.

Jorge

Jules Pijey disse...

Eu, pelo menos até hoje, não consigo responder a essa pergunta. Há tanto livro bom que já li, escolher um, ou mesmo dois ou três, de entre todos... Pois, não vai acontecer.
Até porque há livros que não são nenhuns portentos e que acabam por ter um impacto maior em nós por um motivo qualquer.

Tragam a mim os livros, todos, de preferência. :)

Rafa disse...

Ya'll need some Conde de Monte Cristo!

asesereis disse...

Acho que depende muito do nosso estado de espírito quando somos questionados acerca do nosso livro favorito...

Se estivermos num estado mais pessimista, por exemplo, responderia talvez 1984.

Se estiver num estado mais optimista, talvez respondesse Conde de Monte Cristo.

Se estiver num estado mais fantasioso e mais querente de me abstrair da realidade, temos O Senhor dos Anéis.

Se estiver num estado em que me interesse discutir política, talvez opte por escolher A Song of Ice and Fire de GRRM.

Se estiver para abandalhar a religião, porque não Caim de José Saramago?

Se estiver interessado num bom romance histórico porque não O Memorial do Convento?

Mas, com tantos livros para quê escolher o nosso favorito? (O mesmo se passa com a música, a pintura, a cinematografia, a vida...)

Porque não dizer, os livros que mais gostei foram estes (Para aí uma vintena...) o resto ou era normal ou era medíocre.


Abraço...

Rui Bastos disse...

Jorge, eu também acho isso, mas é só às vezes...

Jules, é isso mesmo :p

Rafa, eu já li, e ficou na minha lista de favoritos, mas daí a ser o meu livro favorito, calminha!

asesereis, exactamente... Não dá para escolher :)